Entrevista com Denise Milan sobre Ópera das Pedras, na 98.7 WFMT de Chicago

Denise-Milan_SESC
Apresentado por Seth Boustead (compositor e diretor da Access Contemporary Music), Relevant Tones é um programa semanal da rádio 98.7 WFMT de Chicago, que traz à luz a produção de relevância da música clássica atual. Destaque do programa, o CD Ópera das Pedras, de Denise Milan, foi transmitido na íntegra, entrecortado por entrevista com sua autora.

Confira abaixo a entrevista.

Num mundo de constante movimento e mutação, você vê as pedras com as quais você trabalha como estáticas ou em transformação?

DM – As pedras parecem ser estáticas, porém estão em constante transformação. Vão se transformando, mesmo que nós não vejamos isso. As pedras contam a história da Terra. Na minha arte, elas têm uma dimensão antropomórfica: têm sentimentos, aspirações e esperanças. São como nós…

No seu pensamento, elas representam a ordem, o caos, ou ambos?

DM – No caos nós já podemos ver as manifestações primordiais da ordem interna da matéria. O caos se transforma em ordem. Essa transformação se presta à interpretação artística, à elaboração de metáforas. Permite chamar a atenção para questões ambientais e também para os processos de evolução individual e da comunidade.

Qual é o nosso papel como seres humanos no planeta? Como nós podemos nos comunicar uns com os outros mais efetivamente?

DM – Nesse tempo de crise – crise econômica, de valores, mudança climática, algumas questões se colocam: Para onde estamos indo? Quando estivermos perante desastres ambientais colossais, como procederemos? Nosso papel como seres humanos é zelar por nossa sobrevivência como espécie na Terra. Isso significa abandonar condutas antigas. Conto a história da Terra, da pedra azul no cosmos, pois esta história nos ensina a sobreviver, permanecer vivos no tempo. Me atenho ao quartzo, que está presente em 90% da crosta do planeta. Tem uma estrutura, que é adaptável e sobrevive. E eu procuro articular no meu trabalho a ciência, a filosofia, a religião e a arte. Focalizo o que nos conecta como seres humanos – o meio ambiente, a Terra – e me estimula a pensar sobre processos individuais e coletivos (desafios e oportunidades) nos diferentes lugares do planeta.

Que papel as criações artísticas desempenham nessa comunicação?

DM – Ao aprendermos sobre a natureza da pedra e a vida da Terra e das ametistas, podemos aprender como viver neste planeta instável, onde só a mudança é estável, como diz Bob Dylan. A Ópera das Pedras desvenda dimensões da vida que passam desapercebidas. Procurei traduzir na ópera o aprendizado que as pedras me propiciaram. Busquei uma linguagem que expressasse o que está escrito na pedra e eu só descobri por ter garimpagado nos subterrâneos do Brasil, onde vivem as mais belas formações cristalinas do planeta. Foram anos garimpando…

Qual é a gênesis da Ópera das Pedras?

DM – Nasceu do meu trabalho com a pedra. A ópera é um chamado que desperta para a vida do subterrâneo. A pedra é protagonista de uma epopéia em que o drama humano é metafóricamente representado. Do magma ao quartzo, a história relata o drama da pedra, que existe em contínua transformação. O cristal, que simboliza uma pedra imortal, se separa do basalto, que simboliza uma pedra mortal. A separação é essencial para a pedra alcançar a sua forma perfeita, a do cristal. Me valho disso para refletir sobre a história humana e a expansão da nossa consciência. A Ópera das Pedras é um canto de renovação, em que se ouve a voz da pedra e a passagem do caos à ordem se torna possível. Uma Terra, exausta e devastada pela avidez/ganância humana, dá lugar a uma Terra renovada pelo amor. A Ópera das Pedras nos remete à nossa relação com o Cosmos. A pedra é a Terra que, por sua vez, é a expressão primordial do feminino e da criação. Na verdade tudo começou quando eu enxerguei as pedras como entidades vivas e criei com elas para criar uma metáfora da vida humana. Uma metáfora centralizada na figura de uma personagem, que se chama Agrégora – uma ametista viva, de 220 milhões de anos, o primeiro princípio feminino da criação. Agrégora canta o seu trajeto em busca da evolução, do momento em que ela se unirá com Solser, a luz de seu coração e guia. Solser é uma pedra rara, com forma estrelar encontrada no interior de algumas ametistas. A Ópera propõe o renascimento da Terra.

Você sempre teve o som em mente quando desenvolvia as instalações?

DM – Durante dois anos e meio, procurei em pedreiras ametistas com formas humanas. Quando vi um grupo delas, imaginei que eram a população do subterrâneo. Sempre ouvi o canto dessas pedras narrando suas vidas para nós. Narrando como elas foram germinadas enquanto embriões no útero magmático, como soltaram seus gritos ao se verem separadas do ventre materno, como conseguiram sobreviver ao terem que enfrentar os obstáculos do caminho. Em suma, como lutaram por seus princípios e seus fins e alcançaram eternidade ao encontraram o seu sol interior. Isso me fez imaginar uma Ópera das Pedras, onde as pedras cantariam o drama da sua sobrevivência. Procurei mostrar como situações adversas podem se transformar em oportunidades para as pedras, que são uma metáfora dos seres humanos.

Sobre a viabilização do projeto, como ocorreu?

DM – A realização de Ópera das Pedras só foi possivel por ter uma instituição como o SESC e um diretor como o Danilo Miranda, que apostam em visões artísticas originais e que possibilitaram a materialização desse sonho.

Como você encontrou e trabalhou com os compositores?

DM – A exemplo das formações cristalinas, o processo de criação foi envolvente. Abraçou cada um que dele participou, convidando todos a vencer o desafio de abrir mão das convenções e abrir espaço para o surgimento de algo novo, nascido do movimento das pedras, revelado em vozes, sons, música, luz. Uma experiência inusitada, que exigia soluções desconhecidas e eu busquei na escultura, nas artes cênicas, no cinema, na dramaturgia e no canto. A epopéia quartza foi ganhando forma e naturalmente me levou ao universo experimental da música de Marco Antonio Guimarães, Naná Vasconcelos, André Mehmari, Badi Assad, Clarice Assad e Carlinhos Antunes. Nossa parceria se desdobrou num trajeto cristalino.

Além de ter as pedras como protagonistas, o seu projeto subverteu as convenções da ópera clássica. No palco, Badi Assad e uma Camerata Popular formada por cinco integrantes são conduzidos pelo maestro Tiago Pinheiro na execução de músicas compostas por Clarice Assad, Carlinhos Antunes, André Mehmari, Marco Antonio Guimarães e Naná Vasconcelos, além da própria Badi Assad. Como foi o processo de trabalhar junto?

DM – Não foi fácil. Imagine artistas e compositores saindo de suas zonas de conforto para entrar em zonas desconhecidas e encontrar soluções comuns. Então havia incerteza, medo, e questões de vaidade também. E eles ultrapassaram estes limites. Foi um desafio fantástico. Como devia ser a música? Podiamos misturar música erudita e popular? Claro, pois a Terra é o lugar da biodiversidade, inclusive da biodiversidade sonora.

Você se surpreendeu com o resultado do trabalho deles?

DM – Claro que sim. Você consegue imaginar a maravilha que foi estar com um grupo dos mais fantásticos compositores brasileiros contemporâneos, criando música para expressar a linguagem das pedras? Vendo eles enfrentarem o desafio de apreender como as pedras se transformam, passam de um estado para o outro. Para levar os músicos a expressarem a musicalidade que eu sinto que a Terra tem, inventei uma partitura quartza, as “quartzianas”, feita de símbolos da Terra, derivados dos códigos geológicos presentes na estrutura da pedras. Esta partitura è análoga às partituras tradicionais de música. Então no caos, onde as moléculas vão em direções diferentes, a música tinha de expressar isso. Ato contínuo, quando as moléculas começam a encontrar sua ordem, a música tinha que expressar o movimento de organização das moléculas.

Como você trouxe o conceito de opéra para o contemporâneo?

DM – Seguindo a evolução da Terra, me tornei intérprete deste movimento e escrevi o libretto a partir de referências mineralógicas e cósmicas, compartilhando este processo com os músicos e intérpretes das vozes da Terra. Lee Breuer, diretor fundador do grupo de teatro Mabou Mines, que veio de Nova York para dirigir a Ópera, deu suporte para que este sistema fosse introduzido aos músicos e assim pudessem desenvolver suas composições. Isso me comoveu imensamente testemunhar como podemos compartilhar uma experiência coletiva de arte que resultasse numa expressão artística original. Misturar canto erudito e música popular. Ver e escutar interpretações diferentes contracenando na mesma performance. O resultado foi além das minhas expectativas, quebrou barreiras do que uma ópera deveria ser e revelou que há muitos espaços desconhecidos pelos quais podemos nos aventurar quando procurarmos pelas manifestações corretas para bem expressar as mutações da Terra em seu processo de criação. Introduzindo no mundo esta versão experimental de uma ópera não tradicional – nossa ópera das pedras.

Por que a dramaturgia da Terra?

DM – O subsolo e a superfície da Terra são assim ricos não apenas de recursos úteis a nossa sobrevivência, mas também de histórias, dramas ou episódios diversos e instrutivos para nossa vida, porque são simbólicos dos movimentos que se agitam sob nossa consciência e também relatam as fantásticas histórias do nosso mundo. Os dramas, mesmo que invisíveis aos nossos olhos e silenciosos aos ouvidos, revelam histórias sem fim de temas trágicos que estão associados às nossas vidas e à do planeta. Entre outros temas ,se atem ao tema de um começo sem começo, ao mistério da gênese da Terra, ao quebra-cabeça metafísico de um destes começos ,à nossa incansável busca das origens, que nos une por ser comum a todos.

Fonte: SESC SP

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