Cansados do tradicional, empreendedores montam empresas sem patrões nem funcionários

POR FILIPE OLIVEIRA

Folha de S. Paulo – Plano de Negócios

A Baobbá é uma empresa com 10 meses de atividade e 35 sócios, todos com os mesmos direitos e deveres na companhia. Na empresa, que fica em um coworking (escritório compartilhado) de São Paulo, a divisão das tarefas do dia a dia é feita de forma voluntária.

Ela desenvolve cinco projetos em paralelo, entre eles as start-ups 101 Chefs, para conectar pela internet cozinheiros e clientes, e a Personal Brasil, que faz a mesma ponte entre personal trainers e alunos.

Sócios da empresa Baobbá, que funciona sem hierarquias
Sócios da empresa Baobbá, que funciona sem hierarquias

Seus sócios fazem parte de um grupo de empreendedores que não quer mais saber da organização hierárquica do trabalho, com patrões que mandam e funcionários que obedecem.

Em vez disso, apresentam-se  como empresas livres, horizontais ou em rede. Não há ordens a serem seguidas, cada pessoa assume as funções para as quais se sente mais motivado.  E espera-se que, com isso, desenvolva seu trabalho com maior motivação,  percepção de propósito e produtividade.

Henrique Katahira, 40, um dos sócios da Baobbá, diz que todos os participantes do grupo são responsáveis por tudo o que acontece na empresa.

“No sinspiramos nas comunidades que começaram com os hippies nos anos 1960, em que se trabalha nesse sistema horizontal. Nelas,  diz-se o seguinte: ‘Se você viu uma tarefa, agora ela é sua.’”

Ou seja, ter uma empresa assim não significa se preocupar menos com os problemas. Pelo contrário, segundo Thaysa Azevedo, 34, o principal requisito para funcionar dessa forma é ter um senso de responsabilidade apurado.

Ela faz parte do NaSala, empresa iniciada no final do ano passado e atualmente com cinco sócios.

Eles desenvolvem, em uma sala de São Paulo que inspirou o nome da companhia,  projetos criados por todos os sócios. Entre eles programa de mentoria individual e série de saraus e palestras que acontecem na sede da empresa). Também se se ajudarem de forma contínua em projetos pessoais de cada membro do grupo, conta Azevedo.

Os sócios do NaSala, Claudia Vaciloto, Bianca Sabatino, Andre Rocco, Rodrigo Franco e Thaysa Azevedo
Os sócios do NaSala, Claudia Vaciloto, Bianca Sabatino, Andre Rocco, Rodrigo Franco e Thaysa Azevedo

SELEÇÃO

Katahira, da Baobbá, explica que não há um processo formal de seleção e incorporação de novos sócios.

Conforme se percebe que se está precisando de alguém com determinada experiência para projeto em andamento, o grupo procura internamente alguém para assumir a função.

Se não houver ninguém disponível, a chamada é aberta para o mercado. A principal forma de achar adeptos ao modelo são as redes sociais, em que há grupos dedicados ao tema das empresas livres.

E O DINHEIRO?

Porém se provar lucrativa a partir desse modelo é uma conquista que ainda precisa ser alcançada pela Baobbá.

Katahira conta que, por enquanto, os projetos da empresa não dão lucro suficiente para pagar as contas dos muitos sócios do negócio. Boa parte deles tem outras atividades, a maioria trabalha também como free-lancer.

Segundo Katahira, é preciso levar em conta que os projetos são novos e, como em qualquer start-up, ganhar dinheiro com ideias inovadoras é algo que leva tempo.

Cada start-up criada pela Baobbá tem equipe própria e seus membros podem definir por consenso como será dividido o dinheiro gerado por ele. Fatores como tempo que cada um dedicam ao projeto e necessidade financeira são levados em conta, diz Katahira.

Outro desafio é a resolução de conflitos. Para isso, o grupo busca sistematizar seus métodos para encontrar soluções::

“A gente sempre tenta usar o bom senso. Mas, às vezes, é complicado. Então usamos processos de decisão. Fazemos uma proposta e perguntamos a todos
se existe alguma razão para não seguir com ela. Se houver alguma objeção, damos um passo atrás e reformulamos a ideia.”

Outro desafio é lidar com problemas quando um dos sócios não se dedica tanto quanto os demais.

“As pessoas têm liberdade para trabalhar da forma como quiser, mas devem ter compromissos com as entregas. Porém a gente ainda não tem uma fórmula para garantir que todos sempre cumpram os prazos que prometeram.”

Segundo Azevedo, do NaSala, a única forma de uma empresa como a sua funcionar é se houver uma grande confiança entre seus membros:

“Não temos uma cobrança como nas empresas tradicionais. Todos aqui sabem qual seu papel”, diz.

REDE

Outra opção que é explorada por empreendedores é trocar a sociedade com algumas poucas pessoas e muitos funcionários por uma rede de parceiros com dezenas de membros independentes.

Depois de chegar a altos postos em multinacionais, Eduardo Seidenthal, 40, deixou a carreira executiva e criou a Rede Ubuntu. A empresa oferece cursos e vivências que tem como objetivo ajudar pessoas na busca por autoconhecimento e descoberta de propósito.

Ele iniciou a empresa há sete anos. Mas, em 2014, decidiu não ser mais dono dela. Deixou para trás o papel de sócio e patrão e definiu que, daí em diante, a empresa se tornaria uma rede, formada por outros profissionais autônomos que compartilhassem sua filosofia de trabalho e conhecimento usado nos atendimentos.

Atualmente são 50 membros, que se reunem a cada 15 dias para discutir novos projetos e rumos da rede.

Seidenthal explica que, conforme a Ubuntu recebe pedidos de projetos, os membros da rede se organizam em grupos para atender a demanda, de acordo com o público com o qual cada pessoa têm mais afinidade.

A empresa possui programas individuais e em grupo, para empresas, ONGs, jovens, mães e idosos.

Eduardo Seidenthal, idealizador da Rede Ubuntu
Eduardo Seidenthal, idealizador da Rede Ubuntu

Cada consultor (chamado internamente de facilitador) tem renda proporcional à quantidade de atendimentos que fez.

Segundo Seidenthal, a transformação da empresa foi importante para aproximar a companhia de suas convicções.

“A filosofia da empresa é de valorizar, ao mesmo tempo, a interdependência e a construção de individualidade. O modelo hierárquico impede isso. Nele, alguém manda e os outros obedecem. E só há oportunidades para alguns, não para todos.”

NEGÓCIOS

Segundo Seidenthal, o novo modelo também traz uma maior percepção da responsabilidade de cada um por seu trabalho:

“Vemos cada vez mais membros assumindo papéis de liderança, trazendo projetos, ideias para funcionarmos melhor. Nosso novo modelo trouxe um protagonismo muito grande.”

Também trouxe mais ganhos para o negócio, diz. Antes, o faturamento da empresa estava muito concentrado em poucas empresas grandes. Agora, com toda a rede atuando junta para buscar clientes, houve uma distribuição maior, que dá mais segurança aos negócios, diz.

NOVOS MEMBROS

Os interessados em entrar para a rede devem participar de encontro em que são explicados os princípio do trabalho feito por seus membros e passar por treinamento baseado neles.

De acordo com suas aptidões, cada participante da rede também assume responsabilidades por trabalhos administrativoss para o grupo em áreas como financeira, comunicação e busca de clientes.

Os custos para manter a operação são pagos de modo voluntário pelos participantes da rede. Todos conhecem a necessidade da empresa e contribuem com o que consideram justo.

DESAFIO

Porém um desafio encontrado pela Ubuntu ao adotar o modelo de rede está em como explicar seu funcionamento ao mercado e se enquadrar nos modelos tradicionais se fazer negócios:

“O sistema ainda não está preparado para dialogar com modelos como o que estamos fazendo. Por exemplo, quando vamos emitir uma nota para uma empresa. Muitas vezes ela quer lançar um pagamento só, mas várias pessoas autônomas fazem parte de nossos projetos.”

CRIPTOMOEDAS

Outra rede brasileira que tem iniciador, mas não dono e, no caso, nem um comitê que a organize, é a Criptotransfer, criada há três meses pelo economista Oswaldo Oliveira.

A rede tem uma página na internet que conecta pessoas que querem aprender a negociar moedas a partir da tecnologia do blockchain (que permite o registro de transações distribuído, sem um órgão central e que está por trás de criptomoedas, como o bitcoin).

Os participantes da rede recebem ferramentas e conteúdos para trabalhar com criptomoedas e são listados em um mapa do site como pontos de apoio do projeto e operadores de moedas digitais.

Quando usam a plataforma da criptotransfer para negociar criptomoedas para clientes, os membros da rede ficam com uma fração do valor da transação.

Apesar de ter criado o site, Oliveira conta que não o controla. Como qualquer outro membro da rede, sua remuneração vem das transações que faz usando a plataforma..

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Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros: 16 anos de resistência

Há 16 anos, na segunda quinzena de julho, o Brasil se encontra na Chapada dos Veadeiros. A vila de São Jorge, distrito de Alto Paraíso / GO, recebe representantes de diferentes povos e comunidades de todo país para celebrar os saberes e fazeres da cultura tradicional. Durante 15 dias – este ano, de 15 a 30 de julho – os olhares se voltam aos interiores, às roças, às aldeias indígenas, aos remanescentes quilombolas, aos pequenos produtores, artesãos, raizeiros, rezadeiras, parteiras, batuqueiros, aos artistas populares. Uma representação clara da riqueza imensurável do patrimônio cultural imaterial brasileiro e da força da fé popular que move nosso País.

Para se garantir como um evento transformador, ano após ano o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros aprende a lidar com as tecnologias sociais dos grupos tradicionais que passam por São Jorge e com eles busca construir diferentes espaços de conhecimento e formulação de estratégias que compreendam suas necessidades, demandas e dinâmicas. Foi assim que as comunidades tradicionais da região da Chapada dos Veadeiros e povos indígenas de diferentes partes do país tomaram para si esse projeto, que já faz parte da agenda coletiva de seu imaginário, apesar das dificuldades financeiras que prejudicam sua participação e a continuidade do evento.

Durante toda sua história, o Encontro se esmera em reforçar que a cultura tradicional excede conceitos. A partir de uma análise nos caminhos da legislatura nacional, fica evidente a falta de investimento e proteção às culturas que, por lei, deveriam ser resguardadas no Brasil. Pensar e debater políticas públicas, garantir formas de organização que priorizem os direitos dos povos e comunidades tradicionais é um dos grandes objetivos desse encontro. Este ano, mais do que nunca, o Encontro de Culturas se posiciona como um projeto cultural de resistência, que luta pela construção de um Brasil verdadeiro, que reconhece e valoriza suas origens.

Às portas da data programada para a realização de sua 16ª edição, o Encontro de Culturas trava uma série de batalhas para garantir sua (re)existência. Uma campanha de financiamento coletivo foi criada para custear o transporte, a hospedagem e a alimentação de representantes do povo Kalunga, uma das mais numerosas e engajadas comunidades tradicionais participantes do evento, responsável pela cerimônia de abertura do evento na vila de São Jorge, com o tradicional hasteamento do mastro do Divino Espírito Santo, a apresentação da Sussa e a encenação do Império Kalunga. A campanha fica no ar até o dia 30 de junho nowww.kickante.com.br/kalungas.

PROGRAMAÇÃO

As atividades do 16º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros começam na sexta-feira, 15 de julho, com a décima edição da Aldeia Multiétnica, que este ano apresenta o tema “Comunicação, Saberes Tradicionais e Novas Linguagens”. Serão sete dias de convivência com diferentes etnias indígenas, como Fulni-ô – os grandes anfitriões do encontro deste ano, Krahô, povos do Alto Xingu, Xavante, Kayapó, Kariri-Xocó, Guarani Mbya e Avá-Canoeiro. Pacotes incluindo alimentação, camping e vivência estão sendo vendidos pelo site www.aldeiamultietnica.com.br. A proposta é que, iniciada a experiência, todos os participantes incorporem-se ao cotidiano de uma aldeia. Em 10 anos de existência, mais de 20 etnias diferentes já passaram pela Aldeia, localizada a cerca de 10 km da Vila de São Jorge, em uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), às margens do rio São Miguel e entrecortada pelas serras da Chapada dos Veadeiros. A vivência possibilita o aprendizado sobre os fundamentos da organização social indígena, além de rudimentos do idioma, do artesanato, da gastronomia, das pinturas corporais, dos cantos, das danças e de outras manifestações culturais desses povos. É a oportunidade de conviver com líderes, xamãs, artesãos, agricultores. Uma dinâmica que oferece conhecimentos históricos, culturais e sociais das etnias participantes e dos povos indígenas em geral.

No dia 22 de julho, como manda a tradição, ao final da vivência na Aldeia os indígenas se direcionam à Vila de São Jorge e passam o “comando” da festa aos remanescentes quilombolas da Comunidade Kalunga e aos povos e comunidades tradicionais convidados. Até o dia 30, a vila será tomada por atividades, como shows, apresentações dos grupos de cultura tradicional, oficinas, rodas de prosa, intervenções artísticas e espetáculos teatrais.

Este ano, pela primeira vez, o evento recebe o I Encontro de Raizeiros e Pajés na Chapada dos Veadeiros, que acontecerá de 20 a 22 de julho na Aldeia Multiétnica, e o Encontro de Lideranças Negras, que será realizado de 23 a 25 de julho em São Jorge. A Feira de Experiências Sustentáveis do Cerrado, montada pelo terceiro ano consecutivo com o patrocínio do Sebrae, é um dos destaques desta edição e contará com 14 estandes, que terão como foco a economia criativa do Nordeste Goiano.

A programação cultural contará com a participação das cinco comunidades precursoras do evento, representantes da região da Chapada dos Veadeiros: a Caçada da Rainha de Colinas do Sul, a Comunidade do Sítio Histórico Kalunga, o Congo de Niquelândia e a Folia de Crixás.

Além destes grupos, a 16ª edição contará com atrações selecionadas mediante edital lançado no site do evento. Foram 177 propostas, enviadas das cinco regiões do país, das quais a curadoria selecionou 24 para a composição da programação artística e de parte das oficinas em 2016. Já está confirmada a participação de artistas como Mariana Aydar, Mestrinho, grupo Berimbrown, Gabriel Levy, Caixeiras do Divino da Casa Fanti Ashanti e o grupo mexicano Danza Del Venado. Esta edição também contará com o Dia da Lavadeira, realizado em 25 de julho, uma releitura da tradicional Festa da Lavadeira, permeada pelas cores do Maracatu de Baque Virado, Ciranda, Afoxé e Caboclinhos do Côco, marcantes na cultura pernambucana.

Programação completa aqui.

Fotos de divulgação em alta resolução:

Congo de Niquelandia
Império Kalunga
Caçada da Rainha
Aldeia Multietnica

Serviço

XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 15 a 30 de julho de 2016
Local: Vila de São Jorge, Alto Paraíso, Goiás
www.encontrodeculturas.com.br

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