Cansados de cartões, empresários buscam novas formas de networking

Por Filipe Oliveira, para a Folha de São Paulo

Cansados do isolamento de trabalhar sozinhos em casa, de trocar muitos cartões de visita em feiras e eventos que geram poucos negócios ou com objetivos de internacionalizar a rede de contatos, empreendedores estão buscando novas formas de fazer networking.

Vale reunir um grupo de desconhecidos para um dia de trabalho e troca de experiências em casa, pagar para virar sócio de um clube restrito e que promete fomentar negócios ou usar uma plataforma especializada no agendamento de reuniões internacionais.

Toda forma de encontro é válida, pode ser um café, um bar, ou uma rede social. O desafio é conseguir unir o lazer que o evento oferece com a objetividade necessária para a realização de negócios, afirma Ana Carolina de Oliveira, gerente do Sebrae-SP.

O dono de uma pequena empresa, muitas vezes, é um solitário. Não tem um grupo de diretores, gerentes e trainees com contatos e novas ideias. Por isso é fundamental sempre ampliar o círculo de relações, afirma José Sarkis Arakelian, professor de estratégia da Faap.

ENTRE QUE A CASA É SUA

Em uma sala de estar, oito pessoas sentadas em pufs, cadeiras e sofá repetem um exercício para elevar a energia: respirar fundo erguendo os braços para cima e expirar com força, deixando eles cairem ao lado do corpo.

Helena Castello Branco que trabalha em 'home office' e recebe em sua casa profissionais que fazem o mesmo

Helena Castello Branco que trabalha em ‘home office’ e recebe em sua casa profissionais que fazem o mesmo

Após três rodadas de 20 respirações, todos estão prontos para começar o trabalho. Mas antes devem contar quais são suas metas para os próximos 45 minutos, seja limpar a caixa de e-mails, seja escrever uma proposta para um cliente ou um relatório.

Todos vão para seus postos em uma das mesas próximas a harpa no fundo da sala e trabalham em silêncio até a próxima pausa de 15 minutos. Começa nova atividade -no caso, uma explanação da DJ Thaysa Azevedo sobre criação de suas playlists -e há uma prestação de contas com o grupo sobre o que cada um conseguiu produzir.

Entre os profissionais reunidos na casa da assessora de imprensa Helena Castello Branco, em uma segunda-feira de março estão uma DJ e produtora de música eletrônica, um corretor imobiliário, uma dona de agência de conteúdo, outro de empresa especializada em bitcoins e dois sócios de duas start-ups de educação.

O grupo faz parte do movimento hoffice São Paulo (mistura de home e office, casa e escritório em inglês), que quer importar a prática iniciada na Suécia pelo economista Christofer Gradin Franzen em 2013 em que as pessoas abrem as portas de seus lares para que outros vão trabalhar lá.

“Quando vi esse esquema do hoffice, achei que era interessante para se fazer networking, conhecer pessoas novas que não querem trabalhar isolados”, diz a anfitriã Helena.

“Depois de uma primeira conversa de apresentação, já me interessei em saber mais dos projetos dos outros que estão aqui. Por isso os ciclos de 45 e 15 minutos ajudam. Se fôssemos parar para conversar tudo o que temos para conversar, não iríamos trabalhar. Então vou esperar a hora do almoço”.

Os encontros são marcados pelo Facebook e as vagas nas casas preenchidas por ordem de confirmação de presença. No grupo paulistano há 375 membros.

Max Nolan, 38, fundador da agência de branding (gestão de marcas) Dervish e responsável por trazer o movimento para São Paulo, marca os ciclos de 45 e 15 minutos repetidos durante todo o dia e conduz as atividades.
Ele conta que há seis meses trabalha em home-office e, desde então, passou a sentir falta de mais interação.

Segundo ele, o hoffice pode ser mais produtivo do que o trabalho solitário em casa, especialmente pelo fato de os empreendedores contarem quais são suas metas para cada momento do dia

CLUBE VIP

Cansado de trocar cartões em feiras e eventos para achar clientes para sua agência de marketing e ter resultados desanimadores, o empresário Maurício Cardoso, 41, decidiu fazer dessa dificuldade um negócio.

Ele abriu em 2014 no Rio de Janeiro o Clube do Networking, em que são realizados cafés da manhã para grupos de até 25 empresários.

Os encontros semanais, que vão das 9h às 12h, e reúnem até 25 pessoas. Cada uma delas participa de 12 reuniões, pelas quais paga R$ 2.100. As turmas não podem ter empresários concorrentes.

Maurício Cardoso, criador do Clube do Networking, com os integrantes do grupo

O clube possui cronograma de discussões e atividades para cada encontro, que buscam explicar o que é networking, fomentar negócios entre os contatos dos participantes e promover a troca de boas práticas de gestão, explica Cardoso.

Ele afirma que o período de convivência dos empresários no clube permite a criação de vínculos, o desenvolvimento de confiança e a realização de negócios entre eles e também indicações de serviços para conhecidos de quem está no grupo.

“As pessoas vão aprimorando a forma de fazer networking durante os encontros. No primeiro dia chegam lá vendendo, dizendo que a empresa fatura milhões e cresce muito. Aos poucos, as pessoas vão se abrindo e contando seus problemas e o que precisam para melhorar.”

A ideia é uma evolução do que acontece no mundo empresarial de forma informal há muito tempo, segundo avaliação de José Sarkis Arakelian, professor da Faap. É comum que um grupo de empresários combinem uma pizza semanal em que cada um leva um amigo com o objetivo de, além de se divertir, ter ideias de negócios.

“É uma boa ideia para o cara que esgotou a rede de relacionamentos dele e precisa ter novos contatos. Pode não acrescentar nada, mas é uma boa tentativa de abrir o leque de oportunidades.”

Fábio Tauk, 41, usou o clube para ajudar em sua transição de executivo em grandes empresas para empresário. Ele está lançando neste semestre a Sky Video Brasil, de filmagens aéreas a partir de drones. Como não tinha contato com muitos empresários, buscou o clube.

Dali, surgiram indicações para os serviços que precisaria no início da companhia, como advogados, agência de marketing. Também encontrou serviço para serviço de reforma em sua casa.

Enquanto ele contratou Mariana Simões, 31, foi para o clube para achar clientes para sua agência de marketing digital Movementes, conta.

Sócia do clube desde sua primeira turma, ela participa atualmente de seu quarto ciclo de reuniões. Hoje, 20% do faturamento de sua empresa, com 9 anos de mercado, vem de indicações pelo clube, 35 até agora (ela não revela o valor total da receita).

MUITO ALÉM DO FACEBOOK

Empreendedores que vão passar alguns dias fora do Brasil para relaxar ou a trabalho têm um site próprio para agendar reuniões com empresários de outros países.

A plataforma Startuptravels foi lançada em 2014 e conta hoje com 4.500 cadastrados de 60 países. Segundo um de seus fundadores, o dinamarquês Anders Hasselstrøm, 24, foram realizados 600 reuniões em cinco meses de atividade da plataforma.

O uso do site é gratuito -a empresa espera lucrar a partir de patrocínios de grandes marcas a páginas de cidades no site.

Ele conta que teve a ideia do negócio devido as viagens mensais que fazia à Escócia para visitar sua namorada. Nelas, percebeu que era difícil encontrar empreendedores fora de seu país.

Segundo ele, há tanto pessoas que usam a plataforma para encontrar sócios ou investidores como também apaixonados por negócios que gostam de aprender.

Carlos Matos, 31, fundador da Multifarmas, é um dos usuários do site no Brasil. Ele conta que conheceu a iniciativa a partir de um grupo de networking que mantêm com outros 11 empreendedores, o BRonFire, que se reúne para assistir palestras quinzenais de especialistas convidados e para happy hours mensais.

Em 2014, ele fez quatro reuniões em visita a Londres, com possíveis investidores e donos de negócios iniciantes, para entender o mercado local. Também recebeu empresário alemão neste ano e o levou para um bar na Vila Madalena, em São Paulo.

“Acho que o site é valioso para quem tem um objetivo, uma necessidade clara. O lazer é sempre bem vindo, mas isso você consegue de outras formas”, diz.

Outra opção para expandir a rede de contatos é criar o próprio evento a partir da internet ou usá-la como fonte para descobrir reuniões interessantes. A Germinadora, empresa que oferece programa para ajudar empreendedores a iniciarem seus negócios, usa a plataforma Meetup (para divulgação e descoberta de eventos na cidade) para criar encontros semanais em sua sede, em São Paulo. Neles, palestrantes convidados discutem temas de interesse para empresários.

Ibrahim Cesar, da Germinadora

Ibrahim Cesar, 28, responsável pela organização do evento, conta que metade das pessoas que se inscrevem para participar dos programas da empresa assistiram antes a pelo menos uma palestra gratuita, que chegam a receber até 40 pessoas.

Um dos participantes acabou, mais tarde, se tornando investidor de outra iniciativa de Cesar, a start-up Blumpa, para a contratação de diaristas pela internet.

“Esses encontros podem não ser o momento de fechar o negócio. Mas abrem um canal para se fazer algo junto mais tarde.”

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Mesmo se aprovado, pacote anticorrupção terá dificuldade para mudar cenário político – Gustavo Justino de Oliveira

Veja o que pensam os especialistas sobre a eficiência das medidas que visam coibir e combater a corrupção no país

O assunto que movimentou o cenário político de hoje foi o lançamento do pacote anticorrupção pela presidente Dilma Rousseff, na manhã desta quarta-feira (18/03). O documento reúne uma série de medidas que visam coibir e combater atos de corrupção.

Entre as medidas enviadas ao Congresso Nacional estão o pedido de urgência para o projeto de lei que trata do enriquecimento ilícito de funcionários públicos, ação de extinção de domínio – o estado pode transferir para si a propriedade de bens e direitos quando estes procedem ou estejam com a atividade ilícita -, a necessidade de os servidores terem lei ficha limpa (extensiva a todos os poderes), a criminalização do Caixa 2 eleitoral e de lavagem de dinheiro para o mesmo fim.

Para o consultor jurídico e professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Gustavo Justino de Oliveira, o pacote é uma resposta imediata às manifestações do último domingo (15/03), assim como aconteceu após os protestos de junho de 2013 com a Lei Anticorrupção, vigente desde janeiro de 2014, mas que ainda não havia sido regulamentada pelo Executivo.

Para ele, embora as medidas pretendam combater o principal foco de descontentamento da população, elas não serão suficientes para coibir as práticas de corrupção. “O pacote é mais uma etapa da construção de um sistema jurídico que se pretende capaz de atenuar o risco de corrupção, mas que depende também da efetivação de outras medidas, como a aplicação efetiva da Lei de Acesso à Informação, a diminuição de obstáculos burocráticos para fomentar a maior competição nas licitações públicas e o fomento ao controle social”, acredita o professor.

Para a professora da Unesp de Franca, Rita de Cássia Biason tentar criar novas maneiras para inibir a corrupção não resolve o problema central. “A falha maior não está no processo final, está no procedimento, na falta de fiscalização dos tribunais eleitorais, no despropósito de licitações”, diz.

Já o cientista político Sérgio Praça, colunista da Época NEGÓCIOS, aposta na dificuldade do cumprimento das medidas propostas, especialmente a relacionada à criminalização do Caixa 2. “Se ela for aplicada, não haverá sobreviventes”, acredita. Ele chama a atenção para o momento político que o governo está vivendo, ou seja, com baixo apoio nas ruas e no Congresso. “E temos que lembrar que a aprovação destas medidas dependem muito mais do Legislativo do que do Executivo. As ideias podem vir e podem ser boas, como de fato são, mas não há estrutura para garantir o funcionamento”, avalia.

O que deve acontecer a partir de agora
O professor de Direito da FGV, Thiago Bottini, classifica como “avanço” a criminalização do Caixa 2, mas aposta em forte resistência política por parte do Congresso, como aconteceu na época da aprovação da Ficha Limpa, que foi votada sobre pressão popular. “As pessoas precisam estar preparadas para acompanhar de perto a evolução do processo”, diz. Outra questão é que, se aprovada, a medida ainda precisará contar com uma reformulação na forma como fiscais do Tribunal Regional Eleitoral aprovam as contas de financiamento de campanhas políticas, com extensão do prazo para avaliar a procedência do dinheiro.

Em relação à ação de extinção de domínio, Bottini acredita que não haverá ganhos efetivos, já que os processos de ação civil costumam demorar muito para ser julgados, mais do que o julgamento penal. “Quando se trata de reaver bens, agilidade no julgamento é fundamental”.
Para ele, o único ponto do pacote que não deve enfrentar qualquer resistência é a regulamentação da Lei Anticorrupção, já que é “uma coisa mais técnica” e “bem estruturada”, mais voltada para empresas e sem impacto na vida dos políticos.

Fonte: Época Negócios